Skip to content

Posts from the ‘História’ Category

6
abr

Contando história.

No meu último post falei a respeito da criação da primeira empresa formal de desenvolvimento de jogos de vídeo game e consoles de vídeo game, a Atari. Descrevi brevemente a história de Nolan Bushnell e seu amigo Al Alcorn, chegando ao ápice na venda da Atari para a Warner e a posterior queda no mercado de games norte-americano. Introduzi a vocês a Activision, empresa originada das mentes brilhantes de ex-engenheiros da Atari, dentre os quais estava David Crane, criador do lendário Pitfall (acho que vou ter que iniciar uma outra série de artigos apenas para contar a história dos jogos, mostrando sua importância e principais inovações a partir de um ponto de vista mais técnico, que acham?). Interrompi nossa conversa em 1984, ano em que a Warner vendeu a Atari.

Hanafuda

Cartas de Hanafuda

Enquanto empresas de fundo de quintal se degladiavam nos Estados Unidos pelos trocados que estavam valendo os cartuchos, do outro lado do mundo, a mais antiga empresa de jogos – de cartas – dava seus primeiros passos rumo ao sucesso insuperável da atualidade, a Nintendou Kabushiki Gaisha. Sim, para quem não sabe, a Nintendo iniciou suas atividades vendendo jogos de cartas artesanais – o nome do jogo é Hanafuda e se alguém tiver mais informações a respeito dele, ficarei grato em recebê-las por email ;-) . Em 1950, a Nintendo chegou a fabricar cartas com os personagens da Disney que eram revendidas no mundo todo, mas os negócios não iam bem. Tentou-se de tudo por lá: tentaram vender arroz instantâneo (parecidos com os macarrões instantâneos que temos hoje), construiram móteis, montaram uma rede de televisão, etc. Infelizmente ou felizmente (uma vez que graças ao insucesso delas que temos hoje uma das empresas mais criativas do mercado de games) tais ações quase levaram a Nintendo a falência, ainda mais considerando que a empresa enfrentava concorrentes como a Bandai, que desde 1950 produzia brinquedos de altíssima qualidade e que no início de 1980 passara a investir em brinquedos eletrônicos. Por sorte a diretoria da Nintendo deu a Shigeru Miyamoto a chance de criar um produto que pudesse fazer frente às grandes empresas internacionalmente.

Mario

Mario

Miyamoto não só criou a tábua de salvação da Nintendo, como também o responsável indireto por reaquecer as vendas de consoles e cartuchos no decadente mercado estadunidense. Em 1981 ele cria um jogo cujo personagem principal (que dá título ao jogo) era nada mais nada menos que o famoso Donkey Kong. Na época era um gorila malvado que raptava a linda namorada de um marceneiro. Sim, Mario – na época Jumpmam, uma alusão ao ambiente do jogo recheado de plataformas nas quais o personagem pulava, “jump” do inglês – era um marceneiro. Ele só virou encanador nas versões seguintes quando se tornou o personagem principal de uma das séries de maior sucesso da empresa e passou a combater inimigos que saiam de canos. Para quem nunca jogou, o primeiro Donkey Kong é um jogo de plataforma, de tela estática, que possui um macaco com uma “princesa” no topo da tela e diversos caminhos “suspensos”. Conforme o jogador vai progredindo fase acima, o macaco lança barris para atrapalhar o caminho.

A Lenda de Zelda

A Lenda de Zelda

Com o sucesso do Donkey Kong – que foi originalmente produzido para Arcades – e o posterior sucesso de seus sucessores (Donkey Kong Jr – neste jogo Donkey Kong Jr deve resgatar o pai do malvado Mario – e Mario Bros – primeiro jogo em que aparece o irmão do Mario, o Luigi) a empresa decide investir na produção de consoles. Em 1983 lança, no Japão, o Famicom (Family Computer). O console foi lançado nos Estados Unidos em 1985 e foi responsável por trazer esperanças às produtoras de jogos da época. Foi renomeado para NES (Nintendo Entertainment System) atendendo ao departamento de marketing que não achou o primeiro nome muito sugestivo (nem eu). Aliás, antes que eu esqueça, Nintendo, segundo a tradução literal, significa “Deixe o destino para o céu” (“Leave luck to heaven”) e parece que o “céu” tem sido generoso com a Nintendo (esqueci de citar no primeiro post, mas Atari é uma palavra utilizada no Go, um jogo de tabuleiro japônes, quando você vai atacar um inimigo, parecida com o “cheque” do xadrez). A venda do NES nos Estados Unidos foi iniciada com 50 mil unidades que se esgotaram em pouco tempo. Uma nova remessa só foi enviada no início de 1986, praticamente no mesmo período em que Miyamoto lança sua obra prima: A Lenda de Zelda. Este é considerado um dos melhores jogos de todos os tempos pela emoção que consegue despertar nos jogadores, determinada pelo crescimento emocional do personagem principal do jogo, o Link. Como podemos perceber, o grande diferencial que Shigeru levou para a Nintendo foi a produção de jogos com histórias coerentes e personagens cativantes (isso me lembra que pulei o PacMan, que talvez possa ser considerado o primeiro personagem do mundo dos jogos).

Em 1986 a Nintendo passa a enfrentar uma nova concorrente: a Sega. A origem da empresa é tão curiosa quanto de sua principal concorrente. Foi fundada no Havaí em meados da década de 40 e transferida para o Japão por volta de 1950 com o objetivo de exportar obras de arte. Mais tarde passou a fabricar arcades que eram exportados para a Europa e América do Norte contendo os mais diversos títulos. A empresa também foi afetada pela crise que assolou o mercado dos jogos em 1983, mas conseguiu se reerguer quando lançou noSonic Japão o Sega Master System. Podemos perceber, nesse momento, que o eixo de produção de tecnologia para o mercado do entretenimento se transferiu para o Oriente. Seguindo as dicas de sucesso de Miyamoto (isso é apenas uma dedução), a Sega cria um jogo fantástico com um personagem cativante: Alex Kidd (ele nadava!!!). Mas a história da Sega fica mais interessante em 1991, quando lançam um jogo espetacular: o Sonic. Um porco-espinho de caráter duvidoso que enfrenta um cientista maluco que está tentando dominar o mundo, o Doutor Ivo Julius Robotnik, também conhecido como Eggman. Acredito que a grande maioria de vocês conheça esse personagem azul-hiper-sônico, então vou poupar maiores apresentações.

Por hoje vou ficando por aqui. Espero que tenham gostado de mais este capítulo da história que construiu o mundo que temos hoje, afinal os vídeo games influenciram – e continuam influenciando – gerações (não tanto quanto o Rock N’ Roll, mas dá pro gasto :-P ).

Mais uma coisa, vocês gostariam que eu escrevesse a respeito dos jogos especificamente (falar sobre o enredo dos jogos e suas inovações tecnológicas e talvez alguns trechos de códigos e métodos utilizados para solucionar diversos problemas e desafios encontrados)?

Grande abraço a todos!

Dúvidas, sugestões e reclamações – raphaelbaldi@raphaelbaldi.com.

3
abr

Pra começo de conversa

Finalmente tomei vergonha na cara e estou, oficialmente, ressucitando o blog. Acho que parte de ser um bom profissional é partilhar as experiências. Pensei muito em como fazer isso ao longo dos últimos meses e concluí que a melhor forma é manter um blog atualizado. Pensei, ainda, em que idioma eu deveria utilizar. Como trato muito de games, programação e tecnologia em geral, pensei em escrever meus textos em inglês, no entanto decidi manter o português como forma de torná-los mais acessíveis aos meus compatriotas, pois sei que o inglês ainda não é uma realidade para todos e o que quero é que mais e mais pessoas se aproximem do desenvolvimento de games para que o Brasil consiga “firmar as pernas” no mercado de jogos eletrônicos.

Escrevi durante algum tempo para o blog AperteF5 e pretendo utilizar os textos que publiquei lá como ponto de partida para o recomeço do meu blog.

Abaixo segue o primeiro artigo que escrevi para o site, na coluna “Por Trás dos Games” e serve para deixar claro o que você poderá encontrar por aqui. Apresenta, ainda, uma introdução à história dos vídeo games, que são a linha guia dos meus textos. Boa leitura!

Sou Raphael Lopes Baldi, aluno do curso de Ciência da Computação da UFRGS. Desenvolvo games publicitários há três anos na Aquiris Game Experience em Porto Alegre. Provavelmente você já cruzou com alguns dos nossos títulos (um dos principais é o Super Vôlei Brasil, outros podem ser vistos no nosso site). Antes que você me pergunte como conseguimos fazer jogos com tal qualidade em flash, já respondo: não é flash! Aliás, esta será minha primeira dica para você que deseja um dia desenvolver jogos: não comece fazendo jogos em flash! Essa simplesmente não é a melhor forma de começar (e não valerá muitos pontos em seu currículo na hora de pedir emprego na Blizzard). A segunda dica é: não tente começar com um MMO (nos próximos artigos você entenderá porquê e descobrirá algumas das melhores formas de iniciar nessa carreira, e também o que é um MMO, caso ainda não saiba).

Acredito que, para alguns, um dos assuntos que abordarei por aqui já ficou claro: a carreira no mercado de desenvolvimento de jogos. Pretendo elucidar dúvidas como: “Onde começo?”, “Como começo?”, “É realmente isso que quero?”, dentre outras pertinentes dentre os iniciantes da área. Além desse tema tratarei mais tecnicamente da forma como os jogos são desenvolvidos: linguagens de programação utilizadas, principais bibliotecas de apoio, exemplos de códigos, simulações físicas para jogos, inteligência artificial para jogos, talvez um pouco de matemática e álgebra linear para que consigamos abordar shaders – conjunto de instruções que contém a maneira como determinado objeto será renderizado -, vocabulário básico, mitos a respeito do desenvolvimento de jogos, “reviews” técnicos de jogos – para responder perguntas como “como eles fizeram isso?” -, talvez alguns tópicos básicos de programação (para que tenhamos amparo técnico no intuito de desenvolvermos nossos primeiros “demos”), dentre outros que podem incluir suas sugestões. Tentarei fazer com que você entre em imersão no mundo dos games, entenda historicamente os acontecimentos que levaram a indústria ao que ela é hoje, tanto no Brasil quanto em outros países. Sugerirei livros, filmes, revistas que podem trazer benefícios a você que inicia nessa jornada.

Você não encontrará, aqui, cracks e seriais para jogos (já devo avisá-lo que sou totalmente contrário a qualquer prática de pirataria, independente das finalidades), fotos de mulheres nuas, discussões a respeito das eliminações do BBB (odeio Big Brother!) e/ou discussões religiosas.  Talvez faça comentárias a respeito de economia e política desde que tenham algum relacionamento com o universo dos jogos. Você encontrará, também comentários a respeito de novas tecnologias que sejam relevantes aos temas tratados.

Agora vamos ao que viemos!

Decidi começar com uma introdução histórica a este mundo que facina a tantas pessoas. Por quê? Porque acredito que, para conseguirmos compreender o presente e prever – e criar – o futuro, temos que entender o passado e tirar dele as lições valiosas que evitarão grandes problemas.

Nolan Bushnell

Nolan Bushnell

Tudo teve início quando, em 1972, Nolan Bushnell torrou seus suados e muito bem guardados 500 dólares para fundar a Atari. Contratou um engenheiro – Al Alcorn – por 1000 dólares (sim, ele blefou para conseguir o cara) e mais parte da companhia. Além disso, Bushnell teve que locar um lugar para que eles pudessem trabalhar. A idéia inicial era criar um jogo com duas raquetes, sendo uma de cada lado da tela, e uma bolinha. O objetivo do jogo era, usando um controle rudimentar, movimentar as raquetes, de forma a impedir que a bolinha atingisse o fundo da “quadra”. Sim, é exatamente o que você está pensando (espero eu), eles criaram o PONG! O jogo fez tanto sucesso que logo a Atari faturava mais de 5 milhões de dólares por ano. A forma de administração da empresa nos remete ao Google hoje: os funcionários eram motivados a criar, era a empresa mais legal de se trabalhar na época.

Máquina de Pong

Máquina de Pong

Talvez nada disso tivesse acontecido se Nolan Bushnell não tivesse visto um jogo muito similar ao Pong (My Brown Box – Minha Caixa Marrom) criado por Ralph Baer anos antes. Baer era um engenheiro e trabalhava com equipamentos de televisão. Ele idealizou, em meados de 1960 diversos tipos de jogos e é considerado, hoje, o verdadeiro pai dos vídeo games. Ele documentou regras (GamePlay) de diversos gêneros, como jogos de corrida, esportivos, dentre outros. Em 1972, sua empresa, a Odyssey estava expondo produtos, dentre eles um jogo de ping-pong, que teria sido a inspiração para Nolan Bushnell. Este foi obrigado a pagar pelos direitos autorais anos depois, o que não reduziu em nada o desempenho da Atari que já havia atingido a maturidade financeira.

Tela do Pong

Tela do Pong

A Atari foi vendida por 28 milhões de dólares para a Warner, logo após ter produzido o VCS – o Atari que vários de nós tivemos em casa – e por desentendimentos com os novos diretores Bushnell acabou sendo afastado da empresa que fundou. Desgostosos com a nova administração, alguns engenheiros abandonaram a companhia e fundaram a Activision (produtora de jogos de grande sucesso na atualidade, como a série Call of Duty), dentre eles estava David Crane, criador do primeiro jogo de plataforma da história: o Pitfall. Como a Warner detinha os direitos de produção de jogos para o VCS, os fundadores da Activision procuraram na justiça uma forma de produzir jogos para o console. Foi o início da decadência do mercado de jogos norte-americano. Com a vitória dos engenheiros, abriu-se um precedente, que permitiu que outras empresas publicassem jogos de qualidade duvidosa, o que desvalorizou os produtos e acabou levando vários empresários ao precipício. Sendo que o pior jogo foi lançado pela própria Atari: E.T. Devido ao fracasso do mesmo, a companhia teria enterrado milhares de cartuchos em um depósito de lixo no Novo México, sob uma espessa camada de cimento. A Atari foi revendida em 1984 (ano em que este que vos fala veio ao mundo).

VCS da Atari

VCS da Atari

Uma curiosidade, a Paramount Pictures comprou os direitos para produzir um filme sobre a história da Atari e de seu fundador. Sem data marcada para o lançamento, Nolan Bushnell será interpretado por Leonardo Di Caprio. Espero que seja um filme fiel à história e venha a se tornar, assim, mais um na minha lista de indicações.

No próximo texto continuarei com a história dos vídeo games, falando sobre os irmãos Oliver, a Codemasters (responsável pela publicação de jogos que curto bastante, como o Grid e o Dirt), a Nintendo, Mario e o famoso Tetris, encerrando este apanhado geral sobre a origem dos games.

Grande abraço a todos!

Dúvidas, sugestões e reclamações – raphaelbaldi@raphaelbaldi.com.