O surgimento dos vídeo games portáteis
No último artigo falei sobre os irmãos Oliver, sobre o surgimento da Codemasters e sobre os primeiros jogos de PC. Falei ainda um pouco sobre o mercado de games que surgia na Europa, mais especificamente na Inglaterra. Hoje vou continuar nas bandas do velho continente e voltar um pouco os olhos para nossa querida Nintendo para falar um sobre os vídeo games portáteis e um jogo que foi febre durante anos, tanto no Japão quanto nos Estados Unidos e que levou a indústria do vídeo game à maturidade.
Nem todos sabem, mas um dos primeiros vídeo games portáteis foi o Palmtex’ Home-Computer Software Super Micro Cartridge System. O sistema que dava suporte ao vídeo game foi desenvolvido exclusivamente para a Palmtex por uma empresa chamada Home-Computer Software. Infelizmente o console surgiu na época errada, durante a crise do mercado de vídeo games nos Estados Unidos. Apenas 3 jogos foram desenvolvidos para a plataforma: React Attack, Aladdin’s Adventures e Outflank. Alguns outros títulos foram planejados mas nunca saíram do papel.
Anos mais tarde, em 1987, a Nintendo apresenta, na E3, o seu mais novo empreendimento: o Game Boy. Muitos criticaram o projeto, dizendo que a tela monocromática era pequena demais e o poder de processamento – cerca de 3.59 MHz – inadequado. A equipe de desenvolvimento, comandada pelo criador do Game & Watch System (o sistema era desenvolvido de forma que um jogo pudesse ser jogado em um LCD que já possuía o cenário do jogo como parte de sua composição e apenas os elemento móveis eram desenhados pelo sistema para poupar processamento) e do próprio NES, Gunpei Yokoi, acreditava que o processamento era suficiente, pois queriam que o sistema fosse o mais portátil possível e contasse com boa autonomia de bateria (durava cerca de 20 horas se jogado ininterruptamente), além de ser barato e tinham razão em suas decisões: o aparelhinho vendeu como água no deserto.
O sucesso não seria possível sem a participação dos russos. Minoru Arakawa, na época CEO da Nintendo da América, era o encarregado por descobrir novidades e levá-las à Nintendo. Ele ainda não tinha visto o Game Boy quando, visitando uma feira de jogos, viu o Tetris, de Alexey Leonidovich Pajitnov, Dmitry Pavlovsky e Vadim Gerasimov. O joguinho, para quem não conhece, se baseia em um quebra-cabeças russo, o Pentaminó. O pentaminó era composto de 12 peças diferentes formadas por 5 quadrados cada e uma caixa. O objetivo do jogo era colocar todas as peças dentro da caixa, sem deixar buracos ou peças de fora (quem já jogou Cilada, da Estrela, tem uma noção melhor de como o pentaminó funciona, com a diferença de que no Cilada é possível deixar peças de fora). Voltando ao Tetris, o objetivo deste jogo era organizar os tetraminos (cada uma das peças do Tetris) em uma tela, de modo a formar linhas completas na horizontal que eram eliminadas, dando pontos ao jogador. O jogo acaba quando as linhas imcompletas empilhadas tocam a parte superior da tela.
Depois de ver o jogo na feira, Minoru Arakawa foi aprensetado ao Game Boy e, naquele momento, sabia qual era o jogo que se encaixaria na posição de elevar as vendas do portátil. Partiu para a Rússia para iniciar as negociações pela licença de produção do Tetris para o Game Boy. A Nintendo já possuía uma versão do Tetris para o NES e isso deixou Pajitnov e os demais membros da empresa em que trabalhava desconfortáveis. Tecnicamente a Nintendo tinha feito um ato de pirataria. Para dificultar ainda mais a situação de Arakawa estava, em Moscou, Robert Stein, detentor das licenças de produção do Tetris para computadores. Inclusive cabe ressaltar que em 1988 ele já era o jogo de computador mais vendido da Inglaterra e dos Estados Unidos. O contrato de Stein, no entanto, não previa nenhum dispositivo que ainda não tivesse sido “sonhado” e nessa categoria estava o Game Boy. Além de Stein, o dono da Mirrorsoft e da Spectrum também estava em Moscou negociando licenças do Tetris, o poderoso Robert Maxwell. Seus métodos de negociação duvidosos não renderam nada e quem acabou ficando com as licenças foi Arakawa. Estava firmado o sucesso do Game Boy.
A história do Tetris é muito mais complexa do que descrevi acima. Se pararmos para pensar na época das negociações a KGB controlava todas as empresas da Rússia de perto. A Cortina de Ferro era uma realidade para o povo russo. Se você ficou interessado, pode ver a versão completa dessa história contada por Vadim Gerasimov aqui. Uma versão traduzida pode ser encontrada aqui.
Os concorrentes do Game Boy não atingiram a mesma popularidade. A Bit Corporation entrou no mercado no início de 1990 apresentando o Gamate. Apesar do preço e similaridade com o Game Boy não contava com os mesmos recursos de processamento. A Atari lançou o Lynx, um portátil revolucionário: foi o primeiro da história a ser aprensentado com visor colorido e se preocupar com canhotos (era possível inverter os controles). Também apresentou a capacidade de proporcionar jogos em rede para até 17 jogadores simultâneos. Todas essas funcionalidades acabaram, obviamente, por deixar o aparelho muito caro (o Game Boy era vendido por cerca de 100 dólares, enquanto o Lynx não saia por menos de 500) o que o tornou um fracasso. A Sega também tentou entrar na concorrência, lançando o Game Gear, que nada mais era que uma versão portátil do Master System com resolução menor, uma paleta de cores maior e a capacidade de reproduzir sons estéreos (o Master System só reproduzia sons monaurais).
O mercado de jogos e vídeo games estava entrando em uma fase de altíssima especialização, uma corrida cujos finalistas são as grandes indústrias desenvolvedoras de consoles de hoje: Sony, Nintendo e Microsoft. As game houses também se especializaram cada vez mais e hoje a concorrência é árdua. Os jogadores querem cada vez mais qualidade nos jogos e exigem gráficos que levam o hardware a seus limites.
Dúvidas, sugestões ou reclamações: raphaelbaldi@raphaelbaldi.com.





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